Amar e ser amado

Ser amado e amar

Dom Julio Endi Akamine

Qual é o primeiro de todos os mandamentos? (Mc 12,28-34) Essa pergunta era um assunto que mexia com as pessoas e causava muita discussão no tempo de Jesus. Com efeito, a Lei de Moisés tinha sido inflacionada por muitas prescrições tradicionais, por explicações e reinterpretações. Por isso a pergunta era muito espontânea.

Na realidade, perguntar sobre o primeiro dos mandamentos continua sendo significativo: o que é essencial entre tantos mandamentos, qual é o princípio que dá unidade a todas as prescrições? Temos que obedecer a uma infinidade de leis (a constituição federal, o código civil, penal, fiscal e tributário, as leis de trânsito, de ética profissional, os estatutos de condomínio, etc.), mas qual é a essência de todas elas? Qual é a lei que, cumprida, leva ao cumprimento de todas as outras.

A resposta de Jesus foi simples e, ao mesmo tempo, estupenda: amar a Deus e amar o próximo. São dois mandamentos incindíveis em sua unidade. “O amor a Deus e o amor ao próximo são como duas portas que se abrem simultaneamente: é impossível abrir uma sem abrir a outra, impossível fechar uma sem fechar, ao mesmo tempo, também a outra” (Kierkegaard, Diário II, 201).

Sem esquecer essa unidade, gostaria de concentrar a atenção sobre o amor a Deus.

Esse mandamento suscita dois problemas. O primeiro consiste nisto: se é próprio do amor a liberdade, um amor imposto por um mandamento não pode ser autêntico. Além disso, sequer Deus deseja um amor coagido. Com efeito, “depois que experimentamos o amor das pessoas livres, as reverências dos escravos não têm mais valor” (Charles Péguy).

O segundo problema é: o cumprimento de um mandamento torna o amor frio. Nós estamos fartos de amor frio! A pandemia nos deu uma amostra do que pode ser um amor frio: sem abraço, sem beijo, sem calor, sem proximidade! Será que Deus quer para si um amor frio?

Para superar o primeiro problema é preciso entender que o amor é a causa, e não o efeito do mandamento. Amo e, em consequência, me sinto obrigado a amar. Tal obrigação não me tira a liberdade, exatamente o contrário. Somente quem ama tem a experiência de se obrigar a amar e se sentir inteiramente livre. A obrigação de amar é o sinal visível do amor invisível; é a comprovação do amor que já existe entre amante e amado; é a autenticação concreta do amor espiritual.

Para resolver o segundo problema é preciso prestar atenção ao que Jesus disse: “amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com toda a tua força”. O mandamento não torna o amor frio porque nós só nos sentimos obrigados a amar Deus porque Ele nos amou por primeiro: “amor com amor se paga”. Mais ainda. Porque nos amou por primeiro, Deus nos comunicou, com o seu amor, a felicidade de amá-lo e de corresponder ao seu amor. Deus é sumamente feliz porque ama infinitamente. Ele não quer, não sabe e não pode amar a não ser infinitamente, e nisso Ele é feliz. Ao nos amar por primeiro, Ele derrama em nós o seu amor que é capacidade infinita de se dar e de se doar ao amado. Nós chamamos esse amor comunicado de graça. São Paulo nos fala do dom do Espírito derramado em nosso coração.

Portanto, o mandamento de Jesus nunca tem como resultado um amor frio, pois na experiência do amor de Deus é impossível separar o amor “de” Deus do amor “a” Deus. Essas duas realidades só podem ser experimentadas juntas: quando nos sentimos amados por Deus (amor “de” Deus), esse mesmo amor é simultaneamente um amor “para” Deus. Não podemos separar esses dois amores como não podemos separar o amor a Deus e ao próximo: o amor “de” Deus é já amor “a” Deus. Sentir-se amado por Deus é já amar a Deus.

Concluo convidando o/a leitor/leitora a uma oração simples.

“Senhor, ‘dá-me um sinal de benevolência’ (Sl 86,17); dá-me um sinal de que me queres bem. Faze que experimente o amor filial de Jesus para que meu coração se alargue e eu corra no caminho de teus mandamentos (cf. Sl 119,32); faze que eu te ame acima de todas as coisas e todas as coisas em ti; faze que sempre te procure para te encontrar sempre; que não haja “em meu coração outro Deus fora de ti”. Faze, enfim, que te ame como sou amado”.

Compartilhar no facebook
Facebook
Compartilhar no twitter
Twitter
Compartilhar no whatsapp
WhatsApp

Últimos Posts

CURTA NOSSA PÁGINA NO INSTAGRAM

CURTA NOSSA PÁGINA NO FACEBOOK