Salmo e Pandemia

Sl 136/135: Deus se Revela Na História e em Tempos de Pandemia

 

Neste tempo de pandemia, quarentena, igrejas fechadas, suspensão de missa com povo e de todas as atividades religiosas, gostaria de propor uma meditação do Salmo 136/135.

Uma parábola judaica imagina que, quando Deus criou o mundo, aproximaram-se dEle os anjos. Um deles trazia dez porções de beleza: o Senhor derramou 9 porções de beleza em Jerusalém e uma só para o resto do mundo. Veio um outro anjo portando dez porções de sabedoria: Deus deu a Jerusalém 9 porções de sabedoria e ao resto do mundo uma. Um após outro, todos os anjos apresentaram dez porções de dons e Deus os distribuiu da mesma maneira. O último anjo, porém, trouxe dez porções de sofrimento. Como Deus distribuiu essas porções? Da mesma maneira: 9 para Jerusalém e uma para o resto do mundo.

Conto essa parábola porque ela introduz o tema da nossa reflexão. Deus se revela na Palavra, na Criação e na História, no grande rio do tempo. Onde encontramos essas nove porções? É na história que a humanidade experimenta a alegria, a festa, o bem-estar, os sorrisos, a beleza, a luz. Mas é também nela que sofre o mal, o luto, a tristeza, as lágrimas, a feiura, a violência, as trevas mais espessas (as 9 porções!). Todas essas porções estão distribuídas nos acontecimentos pessoais e sociais; não poupa os fiéis e nem os ateus; não faz distinção entre homem e mulher, adulto ou criança; atravessa os eventos e os séculos.

A Sagrada Escritura privilegia o tempo como categoria religiosa: não devemos buscar Deus primeiramente nos lugares (espaço. O tempo é superior ao espaço!). Deus se encontra primeiramente na história da humanidade, tendo-se tornado realmente Emanuel.

Ele escolhe a realidade que mais está aderida a nós, que é intrínseca ao nosso existir. Nascendo, nós saímos do útero da mãe para sermos acolhidos em dois imensos úteros: do espaço e do tempo. Mas este último se nos adere mais intimamente a nós.

Somos seres temporais. Temos e somos nossa própria história, que já não existe mais, porque passou, mas que de alguma forma ainda existe, porque esse passado se identifica com nossa pessoa.

A cada momento, estamos planejando o futuro, que ainda não existe, mas que, de algum modo, se antecipa no nosso hoje. Para o hoje da vida, o passado retorna e converge como recordação, memória e duração. Para o nosso agora, o futuro se insere como tensão e como grande mobilização de nossas energias vitais.

Além do tempo que flui em momentos indiferentes e quantitativamente iguais entre si, experimentamos ocasiões em que o tempo parece se concentrar, se tornar qualitativamente diferente e importante. Acontecimentos como o nascimento de filhos, a morte de nossos caros, o encontro dos enamorados, as decisões de vida, podem ser marcados em nossos calendários, mas, pelo seu significado, superam a simples contagem do tempo.

Somos seres temporais, pois o tempo não está fora de nós, como realidade acrescentada ao nosso viver; ele não somente flui continuamente, nem nos faz passar inexoravelmente com ele, mas pode ser experimentado como oportunidade que interpela nossa liberdade, como evento que nos faz descobrir o sentido de nossa vida, como momento qualitativamente superior ao simples escorrer dos instantes.

É aquilo que os gregos chamavam de kairós (tempo forte e significativo) em oposição ao chronos (simples transcorrer das horas e dos dias).

Deus, o Eterno por excelência, quis se comprimir no nosso tempo para se apresentar tanto em nosso cotidiano (chronos) e quanto nos eventos (kairós).

Os cristãos não somente contam o tempo com o relógio, mas o preenchem e o experimentam em comunhão com Cristo. O tempo é vivido pelos cristãos como graça, encontro e liberdade.

Podemos, com efeito, sofrer o tempo: junto com ele se esvai nossa vida, a dos outros e a do mundo. Sentimos a ameaça de nossa destruição, quando o tempo cava em nossas faces as rugas, condena-nos à decrepitude e impõe-nos impiedosamente a demência. Ou podemos também acolher o tempo como dom e entrar nele com sabedoria cristã, nos apropriando dele, vivendo cada momento e instante como seguimento de Cristo e buscando sintonizar as etapas de nossa vida com o ritmo de Deus.

No tempo, Deus caminha com a sua criatura. Mais ainda. A fé cristã descobre Deus em um homem que é também Deus, Jesus Cristo, cuja história está repleta de eternidade. Ao descobrir Deus no homem-Deus Jesus, a fé cristã descobre também a presença de Deus no próximo e no cotidiano. Também eles estão carregados de eternidade.

Com a entrada de Deus no tempo, a história deixa de ser simplesmente o registro de datas e de dados. Surge a história da salvação. O papa Francisco escreve na encíclica Lumen Fidei, 18:

Para nos permitir conhecê-Lo, acolhê-Lo e segui-Lo, o Filho de Deus assumiu a nossa carne; e, assim, a sua visão do Pai deu-se também de forma humana, através de um caminho e um percurso no tempo. A fé cristã é fé na encarnação do Verbo e na sua ressurreição na carne; é fé em um Deus que Se fez tão próximo que entrou na nossa história. A fé no Filho de Deus feito homem em Jesus de Nazaré não nos separa da realidade; antes permite-nos individuar o seu significado mais profundo, descobrir quanto Deus ama este mundo e o orienta sem cessar para Si; e isto leva o cristão a comprometer-se, a viver de modo ainda mais intenso o seu caminho sobre a terra.

O Salmo 136 (chamado de grande Hallel) é um hino de louvor pascal. Depois do convite ao louvor ao “Senhor, Deus dos deuses, ao Senhor dos senhores, porque eterno é o seu amor”, o salmo entoa com afirmações lapidares os eventos da história da salvação em vinte e dois dísticos, o mesmo número das letras do alfabeto hebraico.

É uma síntese jubilosa de todas as ações divinas e de todas as nossas palavras de agradecimento. A assembleia responde a cada afirmação com um refrão: “porque eterno é seu amor”.

O Salmo 136/135 é um hino desenvolvido em forma de litania. Nessa ladainha de louvor a Deus, o refrão “porque eterno é o seu amor” nos conduz a confiar nEle em todas as situações, alegres ou tristes. O refrão é um amálgama, uma síntese de confissão e de promessa, de agradecimento e de clamor em meio às tribulações, de fé, esperança e amor.

Além disso, o refrão “porque é eterna a sua misericórdia” nos remete à questão do sentido: por que dar graças ao Senhor? Neste mundo em que vivemos, há motivos para gratidão?

As tristezas desta vida, a indignação provocada pelo desrespeito dos direitos humanos, o sofrimento causado pelas injustiças não estão ausentes neste salmo (podemos acrescentar os sofrimentos da atual pandemia: o sofrimento dos doentes e familiares,  os velórios simbólicos e a falta dos funerais, a crise econômica e os embates políticos). Pelo contrário, ficam ainda mais intensos quando o olhar do coração se volta para a ação de Deus no cosmos, na história e na nossa vida cotidiana.

Aflora a palavra hesed (fidelidade, amor, graça, misericórdia). Hesed evoca a indecifrável e inesgotável atmosfera de intimidade que circula entre duas pessoas que se amam. É essa palavra-realidade que se tornará o vocábulo-eixo da aliança com Deus.

No início a aliança entre Deus o seu povo foi pensada e entendida com termos políticos (o pacto do suserano com o vassalo).

A partir do profeta Oséias o pacto entre Deus e seu povo é compreendido como um pacto de amor e de intimidade. Jeremias (31,31-34) e Ezequiel (11,17-20) alcançam o ponto alto da promessa de uma “nova” aliança realizada em base à união de corações entre Deus e o homem.

Rezando o Sl 136, desfilam diante de nossos olhos os grandes gestos de amor (hesed) de Deus. Leiamos uma vez esse rosário das misericórdias de Deus:

  1. A criação da terra, das águas, dos astros, do dia e da noite.

Ele criou o firmamento com saber: *
Porque eterno é seu amor!
6 Estendeu a terra firme sobre as águas: *
Porque eterno é seu amor!

7 Ele criou os luminares mais brilhantes: *
Porque eterno é seu amor!
8 Criou o sol para o dia presidir: *
Porque eterno é seu amor!
9 Criou a lua e as estrelas para a noite: *
Porque eterno é seu amor!

  1. O Êxodo do Egito

10 Ele feriu os primogênitos do Egito *
Porque eterno é seu amor!
11 E tirou do meio deles Israel: *
Porque eterno é seu amor!
12 Com mão forte e com braço estendido: *
Porque eterno é seu amor!

13 Ele cortou o mar Vermelho em duas partes: *
Porque eterno é seu amor!
14 Fez passar no meio dele Israel: *
Porque eterno é seu amor!
15 E afogou o Faraó com suas tropas: *
Porque eterno é seu amor!

  1. A experiência do deserto

16 Ele guiou pelo deserto o seu povo: *
Porque eterno é seu amor!
17 E feriu por causa dele grandes reis: *
Porque eterno é seu amor!
18 Reis poderosos fez morrer por causa dele: *
Porque eterno é seu amor!

19 A Seon que fora rei dos amorreus: *
Porque eterno é seu amor!
20 E a Og, o soberano de Basã: *
Porque eterno é seu amor!

21 Repartiu a terra deles como herança: *
Porque eterno é seu amor!
2 Como herança a Israel, seu servidor: *
Porque eterno é seu amor!
23 De nós, seu povo, humilhado, recordou-se: *
Porque eterno é seu amor!

24 De nossos inimigos libertou-nos: *
Porque eterno é seu amor!
25 A todo ser vivente ele alimenta: *
Porque eterno é seu amor!
26 Demos graças ao Senhor, o Deus dos céus: *
Porque eterno é seu amor!

  1. A ação de Deus é primeiramente criadora: o Senhor bom e misericordioso fez grandes maravilhas. Com sabedoria, pendurou o sol no firmamento para presidir o dia, e a lua e as estrela para a noite; estendeu sobre as águas a terra firme.
  2. A ação de Deus é libertadora: Ele tirou do Egito Israel com mão forte e braço estendido, cortou em dois o mar Vermelho e guiou o seu povo pelo deserto. Lutou contra grandes reis até entregar em herança a terra da promessa. O salmo parece atribuir muito espaço aos reis que impediam a passagem do Povo de Deus para a terra prometida. Chega até mesmo a listar o nome de dois reis: Seon, rei amorreu e Og, rei de Basan. Essa insistência tem o objetivo de evidenciar que a hostilidade política não impede a ação de Deus.
  3. A ação de Deus é cotidiana: nos alcança em nosso dia-a-dia, por isso podemos perceber sua ação providente e bondosa no aqui e no agora. Ele cuida das coisas mais simples e necessárias da nossa vida; nos liberta dos perigos e nos alimenta.

Todo esse rosário de ações divinas, de atos salvadores e cotidianos é expressão da hesed do Senhor, do seu amor, escandido pela assembleia litúrgica que entoa: “Porque eterna é a sua misericórdia”.

A bondade misericordiosa de Deus brilha em cada verso deste salmo, como brilha em cada estrela (Cassiodoro, séc. VI).

Cada ação, cada obra de Deus revela a sua misericórdia, como qualidade presente no fato histórico e que ao mesmo tempo transcende o fato (é eterna). Todos os fatos históricos revelam a mesma e única misericórdia, que se torna o fio condutor de toda a história. A história inteira, com suas vicissitudes, alegrias e sofrimentos, tem um sentido unitário e último, que é a misericórdia de Deus (teleologia; a misericórdia relacionas fatos muito diferentes e até contraditórios; Maria conservava todas as coisas e as meditava no coração).

A hesed em Deus é eterna, por isso a misericórdia de Deus não se esgota em nenhum dos atos salvadores, nem na ladainha desses fatos. Tudo revela a misericórdia de Deus e, ao mesmo tempo, é superado por ela. Por isso o salmo fica aberto para a continuação da história.

Assim, a epifania de Deus misericordioso na história contém dois convites.

Em primeiro lugar é um convite a considerar o Senhor como um aliado, um companheiro de viagem potente e amoroso. Há uma relação pessoal que circula entre Deus, que é Outro em relação a nós na sua transcendência, mas não é o frio Motor imóvel da tradição Aristotélica. Ele não é o Deus apático e impassível, como um imperador. É um Deus que pode dizer: “Eu sou” e que manda Moisés salvar o povo. O seu ouvido escuta o grito dos escravos; os seus olhos veem as opressões perpetradas pelos egípcios; a sua mente conhece o sofrimento do seu povo (cf. Ex 3,7-10).

O segundo convite o de confiar no Deus da história. Nós não estamos sujeitos de fatos imponderáveis; os acontecimentos não são fruto do fluxo caótico; os poderes opressores não dão a última palavra sobre a existência humana e sobre o sentido da história.

A história – mesmo que esteja confiada à liberdade humana que muitas vezes é devastadora, infiel e pecadora – traz em si um projeto transcendente de bem, de justiça, de paz que tem como protagonista o Messias (=a vida eterna).

Meditemos este salmo e acrescentemos a ele outras manifestações da misericórdia de Deus neste tempo de pandemia. Partilho algumas dessas manifestações da hesed de Deus.

  1. Cuidar das pessoas e de si mesmo.
  2. A celebração da eucaristia: não é uma apresentação para os outros, mas mistério da salvação
  3. A oração cotidiana: padres, seminaristas, leigos
  4. Shikata ga nai: mansidão
  5. A graça da vida sem graça
  6. O sinal das igrejas vazias
  7. A comunhão dos santos
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