Vida sem graça e na graça

Tenho que reconhecer que estes últimos dias não têm sido fáceis: monotonia, rotina, reclusão. Nem sei bem qual é a palavra mais adequada para classificar o meu dia-a-dia, bem diferente do de pouco tempo atrás, marcado por um ritmo intenso e atarefado. Mesmo que não tenha motivos para me queixar, o ritmo estranho do meu cotidiano pesa cada vez mais.

Resolvi então perguntar ao Senhor se haveria algum sentido para esse peso do cotidiano. Procurei nos quatro Evangelhos uma palavra que se referisse a esse peso e não encontrei palavra alguma sobre a vivência rotineira de Jesus. Os Evangelhos não descreveram o cotidiano de Jesus que durou trinta anos!

A ausência de narrativa desses anos se deve a uma razão muito simples: não precisava ser descrito porque é igual a de todos os seres humanos! Os anos no lar de Nazaré são chamados de vida oculta não porque não sabemos o que aconteceu. Exatamente o contrário, estiveram repletos daquilo que preenche a maioria de nossos dias: o anonimato, a rotina, as atividades irrelevantes.

E é exatamente isso que me consola, pois, vivendo trinta anos no lar de Nazaré, Jesus consagrou o cotidiano da vida. Por isso, o aparente desalento provocado por não ter encontrado palavra alguma nos Evangelhos sobre o cotidiano de Jesus é, na verdade, um grande consolo.

A vida oculta de Jesus está presente na minha, e a minha está presente na Dele. Nada da minha vida sem graça é estranho ao Cristo. Por trinta anos, Jesus viveu o que vive a maior parte da humanidade: uma vida anônima, laboriosa, feita de obediência aos pais, de vida religiosa, de aprendizado lento e progressivo. Vivendo ocultamente, Ele consagrou o cotidiano como modo de realizar a salvação da humanidade.

Em minha vida tudo pode ser participação na ação salvadora de Cristo exatamente porque Ele continua a viver em minha vida a Sua vida oculta. É admirável como a minha vida sem graça pode se transfigurar na vida oculta de Cristo!

É verdade que na vida oculta de Jesus há alguns poucos episódios que quebram o curso rotineiro dos dias: a visita dos reis magos, a fuga para o Egito, a apresentação no templo.

Um destes episódios parece ser o mais significativo para a vida sem graça. Com efeito, “o reencontro de Jesus no Templo é o único acontecimento que rompe o silêncio dos Evangelhos sobre os anos ocultos de Jesus. Nele Jesus deixa entrever o mistério de sua consagração total a uma missão decorrente de sua filiação divina” (CatIgCat 534). O caso da perda e do reencontro de Jesus parece revelar no menino de 12 anos, que foge à vigilância dos pais para permanecer no templo de Jerusalém, um desejo de aventura e de liberdade. Há, de fato, uma tensão entre a aventura e o cotidiano, entre a liberdade e a obediência que vai caracterizar toda a vida de Jesus.

Jesus está submetido à Lei como qualquer israelita, mas ao mesmo tempo tem com Aquele que habita no templo uma relação originalíssima. Ao mesmo tempo em que Jesus é submisso aos seus pais, revela uma liberdade que o faz permanecer na “casa de seu Pai”. Essa não é a liberdade inconveniente do rebelde, mas a liberdade do Filho. Jesus revela e traz ao mundo uma nova liberdade: não é liberdade sem relação pessoal; é a liberdade do Filho que adere à vontade do Pai.

Para a sensibilidade atual, na qual as crianças são vigiadas quase neuroticamente, esse fato da perda do menino pode chocar, mas na Sagrada Família a obediência e a liberdade convivem juntas sem se contradizer, tanto que os pais só deram pela falta Dele depois do final do primeiro dia da viagem de regresso: o menino Jesus tinha a liberdade de passar o dia com os seus coetâneos e de ser cuidado pelos outros parentes. Só precisava se apresentar aos pais no fim do dia.

Depois desta aventura, o menino Jesus retornou com seus pais para mais 18 anos de vida oculta.

Assim acontece conosco. Há sempre imprevistos que rompem o curso habitual da vida, mas eles acabam nos remetendo de novo ao cotidiano. A mesma pandemia que quebrou o curso normal dos meus dias intensifica e impõe o peso da rotina. Não devo esquecer, porém, que essa foi também a tensão que Jesus experimentou em sua vida mortal.

Por Dom Julio Endi Akamine SAC
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